Dislexia não é uma doença

Transtorno atinge até 17% da população; diagnóstico é difícil e deve ser feito por equipe multidisciplinar

Dificuldade de diferenciar algumas letras do alfabeto, de construir frases e até mesmo palavras, não conseguir associar os símbolos gráficos e as letras aos sons que eles representam. Esses são alguns dos sintomas mais comuns da dislexia, um transtorno de origem neurobiológica. Segundo a Associação Brasileira de Dislexia, de 0,5% a 17% da população mundial possui esse transtorno da linguagem, que pode se manifestar em qualquer pessoa e, ao contrário do que muitos acreditam, não está associado à inteligência.

A neuropsicóloga Marina de Conti explica: “a dislexia é um transtorno específico de aprendizagem caracterizado pelo atraso da aquisição da leitura e escrita apesar do indivíduo ter uma inteligência preservada, ausência de problemas sensoriais ou neurológicos, e adequadas oportunidades escolares e sócio-culturais”.

Apesar de não ter cura, o transtorno possui tratamento e a pessoa disléxica pode ter um desenvolvimento igual ao de qualquer outra pessoa. A dislexia pode se manifestar de três formas: dislexia auditiva ou fonológica: quando a pessoa apresenta dificuldade na leitura de palavras com as quais tem pouca familiaridade; dislexia visual ou diseidética: quando a pessoa tem dificuldade de ler as palavras como um todo, confunde as letras não associa os símbolos gráficos; dislexia mista: quando a pessoa apresenta os dois tipos de transtorno juntos.

Em todos os casos, a idade em que o diagnóstico é feito é essencial. Para a terapeuta ocupacional e psicopedagoga, Tâmisa Clímaco, a dislexia pode ser identificada após dois anos de escolarização formal, ou seja, após dois anos de alfabetização concluídos.

A historiadora Iara Ribeiro Regiani é um exemplo. Nascida em uma família com vários professores, sua mãe percebeu que ela demorou um pouco mais que os irmãos para ser alfabetizada. Mesmo depois da alfabetização, ela ainda possuía muitas dificuldades. Ao buscar ajuda em um reforço escolar a mãe de Iara foi aconselhada a procurar uma psicopedagoga, que diagnosticou e trabalhou com ela. Hoje, aos 32 anos, Iara é formada em História e Museologia.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico tardio da dislexia pode ter várias consequências na vida do disléxico. “Umas das consequências que mais se observa é o aumento progressivo das dificuldades escolares, com consequente piora da autoestima e desmotivação no processo ensino-aprendizagem. Por isso é fundamental a otimização do diagnóstico a fim de minimizar os impactos educacionais e emocionais”, explica a neuropsicóloga Marina de Conti.

O tratamento varia de acordo com cada caso. A psicopedagoga Tâmisa Clímaco esclarece como ele é feito: “O tratamento deve conjugar psicopedagógico, psicológico e em alguns casos o fonoaudiológico. Utiliza-se como base o método fônico, ampliação de vocabulário, rimas, soletração, organização de pensamento (oralmente e posterior estruturação de texto), leitura/interpretação e escrita”. Tâmisa ainda ressalta: “O diagnóstico de dislexia não é simples, pois apresenta características semelhantes de outros transtornos, e deve ser feito por uma equipe multidisciplinar: neuropsicólogo, psicopedagogo e fonoaudiólogo”.


Brinquedos pedagógicos e desenhos fazem parte do tratamento



O estímulo a leitura deve fazer parte do tratamento

Preconceito e desinformação

Mesmo vencendo todas as barreiras impostas pela dislexia, a historiadora Iara não teve uma trajetória fácil. O preconceito e o desconhecimento das pessoas foram as maiores barreiras enfrentadas por ela. Durante o ensino fundamental e médio ela encontrou apoio em professores, colegas e nas escolas onde estudou. Mas ao entrar na universidade a situação mudou. “Na universidade eu acho que os professores estão menos preparados para lidar com o aluno. Eles perguntavam como eu tinha chegado até aqui, como se isso fosse algo que me impedisse de desenvolver dentro da universidade, de ser uma intelectual, de estudar”, conta Iara.

Muitas vezes ela precisou se impor: “As pessoas falam: será que não é um pouco de preguiça? Você tem que se explicar, que se defender o tempo todo. Eu falava que isso não é um problema de desenvolvimento, isso é um transtorno de aprendizagem, que qualquer pessoa pode ter e várias pessoas inclusive têm.

Em todos os casos, assim como no de Iara, o apoio familiar é fundamental. Mas isso nem sempre é simples. “Os pais não aceitam inicialmente. Mas frente às dificuldades escolares, principalmente na fase da alfabetização, eles procuram especialistas. O mais importante é deixa claro que a pessoa precisa de auxílio, mas é preciso desmistificar o quadro”, explica a psicóloga Patrícia Villa.

E ao fazer o tratamento adequado muitas crianças que hoje se acreditam menos inteligentes que seus colegas de classe poderão ser os futuros mestres.

Por Fernanda Stumpf
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Por Paulo Melo

DF 24 Horas

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